FOTOS – O DIA
Na Ilha do Governador todos concordam sobre o bairro da Ribeira em duas coisas: é um dos locais mais procurados pela tranquilidade e serviços, mas também é um dos mais ameaçados e prejudicados com trânsito de caminhões com combustíveis para as empresas do local.
A Ribeira é um paradoxo de ocupação do solo, praticamente inexplicável porque centenas de tanques gigantes de combustíveis fósseis, galpões de envazamento de óleo, terminais marítimos de dutos e duas fábricas de óleo combustível com estoque até o teto podem conviver com moradores e visitantes. São quase 5 mil pessoas na Ribeira, com algumas casas e prédios a menos de 200 metros das instalações incendiadas. O vento salvou os vizinhos de sérias intoxicações.
Uma das fábricas não existe mais. Foi queimada até o solo em 28 horas, desde sábado, 12h de 8 de fevereiro até 16h no domingo, causando mais uma vez a comoção geral dos moradores, uma tensão permanente enquanto queimavam e explodiam tanques de óleo na vizinhança. O Caso Cosan Moove agora inunda as páginas e vídeos em empresas de comunicação e na internet, vai durar uma semana, mas vai ser a semana mais importante para destacar que o incêndio podia ter sido evitado.
E que podem fazer um pouco mais dessa vez, resolvendo também o trânsito infernal e arriscado de caminhões-tanque. Diariamente 250 carretas do tipo bi-trem enormes trafegam com produtos inflamáveis na Estrada do Galeão, única via de acesso à toda a Ilha do Governador.
” A Ilha do Governador apesar de concentrar grande número de áreas de riscos, como paióis de munição, dutos de petróleo, as duas fábricas de óleo da Cosan, o aeroporto internacional do Galeão, terminais de petróleo, até hoje não dispõe de um plano de emergência e de evacuação em caso de desastre. ” lembra Sérgio Ricardo Potiguara, coordenador do BV.
Incêndio produziu toneladas de detritos no ar e vazamentos de óleo
O Corpo de Bombeiros só na tarde de domingo, conseguiu terminar o incêndio que atingiu, no sábado, a fábrica de óleo da antiga Cosan, atual Moove, propriedade do bilionário Rubens Ometto. No rescaldo, durante primeira inspeção, o órgão estadual responsável, INEA, declarou ter avistado manchas de vazamento de óleo na Baía.
A Polícia Civil, através da 37ªDP, também está no caso. Ainda no domingo, o Ministério Público do Rio de Janeiro anunciou que vai investigar as causas e já pediu ao Inea um relatório técnico detalhado sobre a operação da fábrica, as possíveis causas das chamas e seus impactos ambientais na região. Várias consequências devem se acumular esta semana e todo esse esforço poderia ter sido poupado se o INEA, em 2019, tivesse cumprido melhor o seu propósito.

Menos de 200 metros das moradias
” Crimes ambientais e ilegalidades nos licenciamentos ambiental e urbanístico desse grupo foram denunciados pelo Movimento Baía Viva em 28 de fevereiro de 2019 ao Ministério Público Estadual-RJ que no entanto com base em informações falsas encaminhadas pela empresa, Instituto Estadual do Ambiente (INEA) e prefeitura do Rio de Janeiro, arquivou o processo investigatório sem ter feito uma só vistoria técnica. O dossiê técnico produzido pelo Baía Viva em fevereiro de 2019 e protocolado no Ministério Público Estadual tem 55 páginas e alerta para a existência de dezenas de instalações indústrias com alto risco de desastres tecnológicos que colocam em risco a vida humana e o patrimônio ambiental e a biodiversidade da Baía de Guanabara e outros ecossistemas ” lembrou Sérgio Ricardo.
” Após tragédia anunciada desde 2019, o Ministério Público Estadual através do recém recriado GAEMA decidiu atender pedido de desarquivamento de inquérito civil feito pelo Movimento Baía Viva que desde fevereiro de 2019 alertou através de um dossiê técnico com 55 páginas sobre a insegurança das instalações industriais da multinacional que polui constantemente com óleo a Baía de Guanabara, com sucessivos vazamentos de óleo no mar, e está instalada ilegalmente numa área residencial, o que pode provocar um desastre de grandes proporções ” concluiu.
Empresa multinacional atua da mesma forma em vários países
A falta de cuidado com respostas prontas a trágedias deve ser uma das marcas corporativas do grupo dirigido pelo bilionário Rubens Ometto. A nota oficial em resposta ao incêndio da Ribeira nem foi publicada no site oficial da empresa. No atendimento aos moradores na porta do terminal da Ribeira não havia nenhum representante, os funcionários todos temiam falar com a Imprensa. Apenas o Corpo de Bombeiros deu informações sobre ausência de feridos. Não foi feita nenhuma proposta de isolamento das pessoas que assistiam o espetáculo dos rolos de fumaça tóxica ao longo do dia quente de verão.
Ao jornal O DIA eles disseram que o incêndio ficou restrito à parte produtiva da fábrica, sem atingir a área dos tanques de armazenamento ou a comunidade do entorno. Mas os tanques foram resfriados todo o tempo pelos Bombeiros, com ameaça de explosão maior, pelo calor do fogo próximo. “A Moove dá início agora ao processo de análise da extensão dos danos causados pelo incêndio, bem como à investigação de suas causas. No contexto desse incidente, a Moove reforça seu compromisso com a segurança operacional e a preservação de seu entorno. O Sistema Integrado de Gestão das Operações da Moove é elaborado de acordo com as normas vigentes e segue protocolos em total conformidade com legislações federais, estaduais e municipais”, diz a nota. Mas a realidade do incêndio desmente.
A Moove foi criada pelo grupo Cosan em 2008 quando ficou com as operações no Brasil da ExxonMobil – então dona da Esso. A rede de postos foi para a Raízen, subsidiária da Cosan em sociedade com a Shell. A Moove Lubrificantes ficou com a unidade da Ribeira. Em 2024, a Moove faturou mais de R$ 8 bilhões, segundo o balanço financeiro publicado.
O dono da empresa, Rubens Ometto, é frequente colaborador de lista de doações aos partidos políticos, de ambas as cores. Recentemente ele subiu no ranking de pessoas físicas doadoras às campanhas eleitorais de 2022 e agora figura no 3º lugar, com R$ 1,85 milhão destinado a políticos. As últimas doações beneficiam aliados do presidente Jair Bolsonaro (PL), como o ex-ministro Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo.
Há algumas semanas, o bilionário, que também é próximo do presidente Lula, criticou a medida provisória que limitou o uso de crédito do PIS/Cofins. Dias depois, reconheceu aspectos positivos e ainda elogiou o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, pela ” Agenda Verde ” do governo. O incêndio vai pegar o empresário num momento delicado, onde estava para vender ativos com alto endividamento. E captando dinheiro para um empreendimento ferroviário. Sobre essa liquidação de ativos há muito o que dizer, na explicação de Sérgio Ricardo.
“É bastante comum no chamado “mundo corporativo” da poluição que busquem se livrar às pressas dos ativos e ações de suas empresas após acumularem gigantescos passivos socioambientais e danos à saúde pública. É o caso das poluidoras e perigosas fábricas de combustível, óleos, graxas da multinacional Cosan que por décadas vem poluindo a Baía de Guanabara por meio de sucessivos vazamentos de óleo no mar e contaminação do solo de duas grandes áreas do bairro residencial da Ribeira. A descontaminação destas extensas áreas e o tratamento de saúde da população e operários, se for de fato exigido pelas autoridades ambientais e em especial pelos Ministério Público Federal (MPF) e Estadual (MP-RJ) terá um custo financeiro estimado em centenas de milhões de reais, e a depender da extensão do dano ambiental provocado pode ultrapassar o custo financeiro de alguns bilhões de reais.
Na linguagem popular e policial, ao tentar se livrar às pressas deste gigantesco passivo socioambiental e à saúde coletiva, estaríamos diante de uma tentativa da empresa de promover uma *queima de arquivo”. A legislação ambiental brasileira que é ancorada nos princípios da Precaução e da Prevenção que são os principais pilares do Direito Ambiental internacional, prevê que cabe ao agente poluidor o financiamento integral dos impactos ambientais e danos à saúde coletiva”.

Fábrica queimada pode ser vista da pr. da Engenhoca
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