As mobilizações indígenas em Santarém (PA) atingiram um novo patamar de tensão nesta semana, com o bloqueio temporário do aeroporto internacional e a continuidade da ocupação do terminal de cargas da Cargill, que já dura mais de duas semanas. O movimento, que reúne cerca de mil indígenas de 14 povos das regiões do Baixo, Médio e Alto Tapajós, protesta contra o projeto de dragagem do rio Tapajós e a privatização de hidrovias na Amazônia.
O estopim da recente escalada foi a ausência de representantes do governo federal com poder de decisão em reuniões presenciais. Como forma de pressão, na última quarta-feira (4), os manifestantes bloquearam a rodovia Fernando Guilhon, único acesso ao Aeroporto Maestro Wilson Fonseca, e ocuparam o terminal de passageiros, provocando o cancelamento de voos. A via e o aeroporto só foram liberados no fim da noite, após avanços nas negociações mediadas pelo Ministério Público Federal (MPF), que contaram com a presença de membros do Ministério dos Povos Indígenas (MPI) e da Funai.
O impasse sobre o Decreto 12.600/2025
A principal reivindicação das lideranças é a revogação do Decreto nº 12.600/2025, que incluiu os rios Tapajós, Madeira e Tocantins no Programa Nacional de Desestatização. Os indígenas denunciam que a dragagem do Tapajós — essencial para o escoamento da soja via hidrovia — foi iniciada sem o licenciamento ambiental adequado e sem a Consulta Prévia, Livre e Informada, conforme exige a Convenção 169 da OIT.
Embora o governo federal tenha reiterado em nota que nenhuma concessão avançará sem ouvir as comunidades, as lideranças mantêm a ocupação no porto de Santarém. Para os manifestantes, a dragagem ameaça a segurança alimentar, sítios arqueológicos e a espiritualidade do rio, transformando-o em um “corredor de mercadorias” em detrimento da vida tradicional. A continuidade dos protestos depende do resultado das novas rodadas de diálogo iniciadas nesta quinta-feira (5).


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