Baía Viva denuncia precariedade de indígenas guaranis refugiados em Maricá e mobiliza rede de apoio
Após medida do governo de Javier Milei, 87 indígenas guaranis vindos da Argentina vivem sem acesso adequado a moradia, água, alimentação e documentação
Por Bruna Aragão

Jovens indígenas guaranis vindos da Argentina e hoje abrigados na Aldeia Mata Verde Bonita, em Maricá. Fotos: Cláudio Fagundes/Movimento Baía Viva
O Movimento Baía Viva está mobilizando uma rede de solidariedade e cobrando providências institucionais diante da situação de vulnerabilidade enfrentada por indígenas guaranis refugiados que vivem em aldeias de Maricá, na região metropolitana do Rio de Janeiro.
Atualmente, 87 indígenas — a maioria crianças e idosos — vivem em condições precárias, com dificuldades de acesso à moradia adequada, água potável, alimentação e documentação.
A presença do grupo no Brasil está ligada a mudanças na política indigenista da Argentina. Em 11 de dezembro de 2024, o governo do presidente Javier Milei revogou dispositivos legais que garantiam proteção contra despejos em territórios indígenas, o que levou dezenas de guaranis a buscar refúgio fora do país.
A partir dessa decisão, 45 indígenas deixaram a província de Misiones e percorreram cerca de 250 quilômetros até o Brasil. A travessia foi feita em um ônibus cedido ao grupo, formado majoritariamente por mulheres, crianças e idosos.
“Antes de Milei já era difícil. Sempre foi luta. Eu já tinha saído de lá uma vez para São Paulo. Agora ficou pior”, relata o pajé Eugênio, uma das lideranças do grupo.

Pajé Eugênio, líder do grupo de indígenas guaranis que migrou da Argentina para Maricá.
Acolhimento em Maricá e disputa territorial
Ao chegar ao Brasil, os guaranis buscaram apoio de parentes e foram acolhidos na aldeia Mata Verde Bonita, em Maricá, liderada pela cacica Jurema. Com o tempo, parte do grupo organizou um novo espaço próximo dali, criando a Aldeia Morada dos Pássaros (Guyra Amba).
A Aldeia Mata Verde Bonita é resultado de um processo de retomada territorial iniciado há cerca de 14 anos e ainda não foi oficialmente demarcada pelo poder público.
No estado do Rio de Janeiro existem atualmente oito aldeias indígenas nos municípios de Angra dos Reis, Paraty e Maricá, das quais apenas três foram formalmente demarcadas. Somente em Maricá vivem cerca de 400 indígenas guaranis. O município também abriga a aldeia guarani Yakã Mirim (Céu Azul), localizada no bairro do Espraiado, na área da Fazenda Pública Joaquin Pinero.
O primeiro mutirão para receber os indígenas foi organizado pela própria comunidade local. No final de 2024, com doações de alimentos e celebrações de acolhimento. Desde então, novas campanhas de solidariedade têm sido realizadas e a comunidade vem crescendo, com o nascimento de crianças e a chegada de outros parentes.
Condições precárias motivam ação institucional
Diante do agravamento das condições de vida, tramita na Defensoria Pública da União uma representação sobre as condições precárias enfrentadas pelos indígenas há um ano e três meses.
Apesar de receberem algumas doações e apoio pontual da prefeitura de Maricá, a estrutura da aldeia não tem sido suficiente para atender o crescimento da comunidade.
“Estão vivendo sem banheiros sanitários, com pouca água para beber e plantar, e em moradias improvisadas onde chove dentro. São muitas crianças, inclusive um bebê recém-nascido, além da mãe do pajé Eugênio, a Paulina, conhecida como Mamã, que tem 116 anos de idade”, afirma Sérgio Ricardo Potiguara, cofundador do Baía Viva.
Refugiados reconhecidos, documentação incompleta
Os guaranis que chegaram ao Brasil foram reconhecidos como refugiados políticos pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública e pela Polícia Federal. No entanto, apenas 13 pessoas do grupo receberam documentação até o momento.
Sem documentos e enfrentando escassez de recursos, as necessidades da comunidade continuam crescendo.
“Falta telha para as casas, roupas, alimentos. Documento também não estamos conseguindo”, relata o pajé Eugênio.
Como ajudar
O Movimento Baía Viva está apoiando campanhas de solidariedade para garantir condições básicas à comunidade indígena em Maricá. Doações de alimentos, roupas, colchões e materiais de construção são algumas das principais demandas.

Indígenas argentinos recebem colchões através de doações
Interessados em contribuir podem entrar em contato com a cacica Jurema (21 96715-4271), da Aldeia Mata Verde Bonita, ou com o pajé Eugênio (55 13 9 9743-3144) e Francisco Eugênio (55 21 97235-5325), da Aldeia Morada dos Pássaros.
Comunidade guarani segue em resistência
Lembrando que a história do povo guarani é marcada pela resistência e a busca permanente por territórios onde possam viver com dignidade, o pajé Eugênio diz que não ignora a ideia de resistir e migrar se for preciso: “Temos parentes em Paraty, Angra e Ubatuba. Lá podemos ter mais água e alimento”.
Enquanto aguardam soluções estruturais e o avanço da regularização documental, os guaranis seguem mobilizados para manter sua cultura e garantir a sobrevivência da comunidade.
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